A vacina

O dia amanheceu estranho para Gabriel, assim que levantou da cama reparou que o céu e os prédios possuíam a mesma cor. Abandonou a janela e caminhou até sua mesa de madeira, raridade naqueles tempos, sentou-se em sua cadeira e disse:

-Bom dia, Jim. O notebook saiu de dentro da mesa. – É o grande dia,hein?

Sem emoção alguma, a voz respondeu.

– Bom dia, Senhor. Segue o relatório da operação de hoje.

– Obrigado, Jim.

– Senhor?

– Sim.

– Os remédios da sua esposa acabam em 6 dias, ainda não há dinheiro na conta para a compra automática.

Aquilo foi um baque. O homem encostou em sua cadeira, sem saber o que fazer, em menos de 6 dias receberia seu salário e compraria os remédios para Mary. Mas mês que vem tudo seria diferente. O mundo será melhor, se tudo der certo na operação de hoje, o último bandido seria preso e a Bastilha inteira vacinada no Big Event.

A vacina criou um mundo sem violência e os poucos “Não-vacinados”, já estavam presos. Só um restava um, ele não era o mais violento, apenas vivia gritando papos sobre liberdade mental e andando sem camisa, mas precisava ser vacinado, ninguém viver sem o controle da vacina. A operação cuidaria facilmente dele.

O “dia do alívio” está próximo. Nem bandido, nem polícia. Em dois dias todos seria vacinados e adequados aos bons costumes. Em no máximo um mês Gabriel precisava ser qualquer outra coisa, menos um policial (o que ele amava fazer e ganhava muito bem por isso). Mas com a vacina, não haveriam mais bandidos ou ilegais para prender, bater, castigar ou matar. Em dois meses Gabriel não receberia seu salário, em dois meses os remédios de Mary não poderiam ser comprados.

-Senhor, esta na hora. A voz metálica o tirou de seu mundo.

– Sim, Jim. Separe minha farda no armário e imprima os relatórios. Vou ler no caminho.

– Sim, senhor.

Vestido para seu último dia como policial entrou em seu carro pelo banco de trás e perdeu uns segundos procurando o endereço na papelada, achou e o disse em voz alta, carro se moveu.

Já em seu destino, um bairro bonito no subúrbio, cumprimentou os colegas que já se encontravam lá e ordenou o início da operação. A porta da casa foi implodida e segundos depois, 50 homens passaram por ela como um trovão, logo atrás Gabriel os seguiu. Ao chegar no quarto casa, Gabriel se deparou com um homem pardo de cabelos negros penteados para trás sentado na cama, como se aguardasse dias por aquele momento. Como se sonhasse em ser vacinado. Ali sentado na cama estava o fim de uma história de 20 anos de trabalho como policial, ali sentado na cama, estava o inicio de uma nova era.

– Senhor… o policial falou educadamente.

-Sim. Respondeu o pardo.

– O senhor esta preso, por um dia, até que seja vacinado durante o Big Event na Bastilha.

– Eu sei, quero ser pedreiro.

O policial concentrado em seu procedimento nem prestou atenção no que aquele homem disse, apenas o algemou e o levou para o carro da polícia. Como aquele era o seu último preso, Gabriel solicitou a um soldado que fosse com seu carro para a Bastilha, ele mesmo acompanharia o criminoso, que não demonstrava tendência nenhuma a reação.

– Senhor? O pardo perguntou.

–  Há quantos anos é policial?

– Vinte, filho. Respondeu com calma, afinal não era uma pergunta ofensiva e o Pardo sabia que depois dele não haveria mais policia e aquele homem estava com os mesmos problemas que ele. O pintor vacinado não pintaria nada tão bom quanto ele. Assim como um policial vacinado, não combateria a violencia. Mas a policia era obsoleta agora.

– Depois do Big Event, você fará oque?

– Serei vacinado, procurarei um emprego e você?

– Virarei pedreiro, não ouviu. Vou precisar mudar de vida, não vai dar para viver como pintor com a minha cabeça sendo controlada.

– Apenas os instintos ruins serão controlados.- O policial já repetiu essa frase mil vezes antes.

– Achei que o fato de sermos racionais, já os controlava. Mas o governo quer tudo certo não é? É o melhor para todos, sermos anulados né? Sermos todos iguais.

– A liberdade precisa de segurança. Você não agredia ninguém, mas seus gritos e pinturas agressivas poderiam gerar desconforto e até mesmo descontrole na população. Atrapalharia a liberdade.

– A liberdade de um povo controlado, certo?

– Sim, certo. A liberdade precisa ser defendida.

– E para isso o governo, retira a minha mente e implanta a deles.

– Não vão implantar uma nova mente em você, apenas a vacina, que o deixará livre para ser o que quiser, menos…

– Livre.

– Hei, por Favor, não me obrigue a quebrar seus dentes.- O policial falou calmo novamente.

– Sim,senhor. Posso perguntar mais coisinhas? De não vacinado para não-vacinado.

– Fala, filho.

– O que vai fazer depois do Big Event. O que você faz a não ser um policial? O que vai fazer com o salário de um qualquer? O que vai fazer quando não puder descontar a sua violência, em quem o governo considera violento.

O policial se irritou, ele tinha total noção do que o Pardo estava falando. Sabia que era real, mas não poderia admitir aquilo, era desrespeito e ele ia pagar. Com um soco forte no estomago, ele respondeu entre os dentes.

– Serei o que quiser.

– Você já é o que quer. E desmaiou devido a um outro soco.

Gabriel chegou a bastilha e entregou o homem aos carcereiros, assinou a papelada, tirou fotos e foi para casa. Em casa, beijou sua mulher ainda na cama devido ao poder dos remédios que tomava e sentou em sua cadeira.

– Jim?

– Senhor, o que deseja?

– Quero saber o que faz um pedreiro, um padeiro e hmmmm, um professor e seus salários e o nível de poder que exercem na sociedade.

– Claro senhor, deseja que eu imprima os relatórios ou ver na tela ?

Após a afirmativa do policial, as tabelas saíram pela impressora e Gabriel começou a analisar. Ele precisava decidir. Observou, revisou, fez as contas e infelizmente não seria impossível manter o padrão de vida assim como seria impossível pagar os remédios, a casa e ser feliz. Ele gostava de ser policial, caçar as pessoas, prender, soltar e ganhava fortuna por isso. Mas o dinheiro só era para importante para manter a sua esposa viva, o que ele mais gostava era o poder. As pessoas o admirando por ser um “não-vacinado” defensor da civilização, a capacidade de definir o melhor para o mundo.

Após virar e mexer os papéis, Gabriel tomou uma decisão. Uma definição do que era o melhor para a sociedade. O Big Event estava próximo e o mundo ficaria muito melhor do que era. O problema é que nesse mundo melhor, não tinha espaço para Gabriel e nem para sua esposa.

– Jim, Ligue para o sargento Miguel, no celular dele, por favor.

– Alô. Miguel?

– Fala Gabriel, tudo bem, policial?

– Vou sentir falta de ser chamado assim…

– Eu tenho Gabriel, Eu também. A única coisa que sei fazer é isso. Estou com medo.

– Se acalme, Miguel! Você vai dar um jeito. Eu sei que vai. Enfim, preciso de sua ajuda. Preciso cobrar aquele favor e te dar um presente. Você ama de verdade ser policial?

– Amo sim senhor, é tudo para mim. Mais do que o senhor pode imaginar.

– Preciso de um bug nas câmeras do presidio, 2 minutos, às 3 da manhã, antes do Big Event.

– Te devo uma e vou fazer, mas posso perguntar o porque?

– Quero resolver umas coisas antes da vacina. E você sabe que essa conversa morre aqui né? Seriamos os dois presos…

– Claro, Gabriel, amanhã as 3. Te vejo por aqui.

– Não você não vai me ver, as câmeras estarão quebradas.

– Sim senhor. Respondeu Miguel rindo.

Eram 10 da noite. Cedo, mas Gabriel resolveu deitar. Amanhã não tem trabalho, não tem ninguém para prender então resolveu acordar mais tarde, para isso tomou um remédio de sono e colocou o despertador para às 12h.

No outro dia quando acordou fez questão de ele mesmo dar os remédios para sua mulher. Limpou sua casa, mudou alguns móveis de lugar e pesquisou mais algumas profissões e odiou tudo de novo. 20 minutos antes do horário combinado chegou a Bastilha, cumprimentou alguns colegas e falou que ia se despedir do local. Os, ainda, companheiros abriram as portas e deixaram ele entrar. Por quinze minutos caminhou entre os presos que estavam dormindo, ele colocou, pessoalmente, metade daqueles homens lá e em algumas horas, a existência deles mantinha sua mulher viva e persegui-los era a razão do seu viver.

Ao chegar na última cela daquele corredor ele parou, ol

hou para dentro, lá estava o pardo. O último preso da face da Terra. Um artista. Observou lentamento o levantar do preso de seu beliche.

– Senhor, tudo bem? Aproveitando as últimas horas de vida?

– Eu não vou morrer, vou trocar de emprego.

– É, se você diz.

Gabriel olha no relógio, agora!

– Eu quero um quadro.

– Han?

– 17/07/1789.

O barulho da cela de abrindo. E o policial ficou parado ali.

– O que você esta fazendo seu maluco? Os presos vão fugir… Por que tá fazendo isso?

– Essa é senha de algumas celas. Quando sair apague a luz.

– Você esta me deixando fugir. Por quê?

–  Questões profissionais.

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