O dia em que descobri que minha namorada era humana…

O sol nasceu para mim, assim como para qualquer um. A vida estava lá, cheia de tudos ou nadas. Eu tinha total certeza do que eu queria, mas a sensação era diferente, eu estava com um pouco de medo, feliz, mas o medo tinha chegado. O ciúme também estava lá. Eu era a caixa de Pandora, aberta para todos os males, mas também para a esperança. Eu estava confiante, sabia o que eu queria e foi assim o dia em que descobri que minha namorada era humana.

Mesmo depois de um ano inteiro de amizade sincera, nós começamos a namorar, não importa que eu soubesse tudo o que ela tinha feito da vida. Eu idealizei um mundo sob aquela mulher. Eu joguei nela aquele ser que eu achava que queria para mim. Não, isso não é uma tosquice machista, é só um ser humano aplicando suas ilusões sobre outro. Quase natural para sonhadores. Eu havia sofrido muito e ela era a solução, como um remédio, só que com gosto bom.

Eu tenho uma teoria sobre relacionamentos, eles começam nos castelos, mas só se firmam na floresta. É na natureza selvagem ou até meio into the woods mesmo. Lá vale tudo, no castelo só vale ser príncipes e princesas, Romeus e Julietas em perfeita sintonia, mas na floresta, fora da corte, somos dois humanos cheios de defeitos.

Into the wood

Construí nela uma mulher forte, fiz promessas de nunca fazer chorar aquela amazona que eu mesmo criei. Ela tinha o poder sobre mim, era perfeita e sem complicações, aquela mulher era como a água e sua transparência quase me refletia. Eu não percebia, mas estava, em meus sonhos, quase namorando comigo. Durou pouco tempo, ainda bem, Afrodite não é de ser cruel com os amantes sinceros.

Ela veio em uma manhã, solicitou alguma arrumação, sem querer deixou uma comparação com o ex-amor escapar. Ele era organizado, tomava decisões, rico, regia e mandava sobre o que quisesse. O cara era o rei poderoso, eu o bardo tristonho. Minha musa estava ruindo, ela não tinha direito à comparação, eu sou perfeito, ela deveria ser… Merda… ela é humana. Não foi fácil superar aquilo, fiquei aéreo. Ainda digerindo a frustração reparei que ela falou um palavrão, de novo não! Falou sobre medos, sobre sonhos que não eram meus e depois não podia ficar porque os pais dela iam embaçar. Eu gritei e ela chorou. Ela não era a amazona. Aquilo era a floresta, os animais em volta.

Simplesmente eu conhecendo a minha mulher, ela foi para casa. Sentei no meu sofá, um bom parceiro para a epifania. O medo e o silêncio eclipsavam o sol do meu reino, fiquei ali olhando meu céu de concreto com uma estrela apagada. Ela chorou, ela viveu, ela tem limites, ela fala palavrão, ela odeia as coisas e comecei a rir, novamente como o joker que eu sabia que era.

Eu estava adorando aquilo, aquelas coisas normais descarregadas em cima de mim, minha desilusão… eu que sempre previ tudo.  Ela veio e destruiu nosso castelo, me deixou ali remoendo nas ruínas, eu tão apegado a desconstruções. Naquela noite, fiquei com frio, as paredes não estavam lá para me proteger, dormi eu e depois os grilos.

Ela veio no dia seguinte, juro, odiei a roupa dela e por dentro ri de mim mesmo. Estou amando, olhando por dentro do espelho quebrado e amando. Vou fazer poesia dessa mulher, a outra já me soa meio chata. A como eu aprendi a gostar das imperfeições dela, de todos os tons de cinza que me apresentava, um a um. A convivência estava acabando com eu e criando um nós. Eu estava curioso queria mergulhar naquele lago, tão menos transparente que o primeiro. Ela estava sendo ela, eu estava sendo eu e, ao invés de dois eus, eu estava adorando ser nós.

Muitos defeitos vieram, tenho certeza que ela viu muitos dos meus. O primeiro dia foi difícil, o segundo foi como o amanhecer, eu nasci de novo, ou ela, não sei. Sei que me apaixonei duas vezes pela mesma mulher.  Apaixonei-me quando conheci suas qualidades e acreditei que ela fosse feita daquilo e depois me apaixonei de novo quando tinha certeza de que não foi. Enfim, assim como eu, ela é uma humana cheia de manias chatas para caralho, lixos e luxos, mas é a humana que escolhi para mim.

            Fica para um café ou para a vida toda?

Final feliz

 Por Ele.

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