Arte pra Quem? – Mais Choque, Mais Cultura

Ainda no pique “De dentro para fora” da Choque Cultural, hoje eu quero propor uma discussão, uma reflexão. Hoje falaremos menos de fotografia e mais de Arte.

Uma leve digressão inspirada pela discrepância entre as manchetes:

Observe a foto abaixo. Você entraria nesse beco?artepraquem_jatefalei-56

E se você soubesse que ali estão obras de artistas famosos, reconhecidos e bem conceituados, extremamente talentosos, entre brasileiros e estrangeiros, que fazem parte de coleções permanentes ou exposições de galerias internacionais… E agora, você entraria nesse beco?

artepraquem_jatefalei-42Se você soubesse que ali tem vida, tem cor, tem um pedaço da alma de alguém em forma de tinta e tempo. Tem ali obras de arte que talvez desapareçam em alguns dias, meses, anos… ou nunca. Tem ali dedicação, conceito, tem ali o toque humano. Em cidades crescentemente cinzas e esquecidas, desprovidas de contato humano, pra muitos se torna incrivelmente incômodo pensar que existe gente além de nós mesmos.

artepraquem_jatefalei-38Sempre pensei na cidade como um organismo vivo, como um ser que vive, respira e pensa como um só. Este ser, na pluraridade, cresce, se desenvolve e se conhece. No momento em que contesta sua própria lógica, no momento em que subverte à si mesma, dá um salto gigantesco na direção do auto-desenvolvimento e auto-conhecimento. Na subversão, este Ente se alimenta.

"Grafite no Muro um porto seguro. O santo remédio que combate a tristeza e o tédio."
“Grafite no Muro
um porto seguro.
O santo remédio
que combate a tristeza e o tédio.”

Nessa metáfora, um beco ou a própria periferia, não podia ser se não um daqueles cantos da nossa alma que não gostamos de tocar, que não gostamos de lembrar que existem e que por mais odiados e feios, serão sempre nossas características mais gritantes, complexas e difíceis de mudar.

artepraquem_jatefalei-41Acho que é aqui que o Grafite e a Arte de Rua gritam mais alto! transformam o feio em belo, o “não olhe” em “olhe”, chama pra si a responsabilidade se propõe a morar nos nossos cantos escuros, feios e esquecidos e transformá-los. Mostram que ali no vazio, existe alguém. Um outro ser pensante pra contestar o que propositalmente esquecemos, oprimimos e escondemos.

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“Quem mora na rua anda o dia todo de pijama” Avenida Consolação

O grafite vai subverter! Vai roubar a Mona Lisa e expôr em praça pública. Não é mais necessário esperar o final de semana, se dirigir à um local específico, pagar ingresso, se enclausurar para vivenciar a arte também enclausurada e sequestrada. Hoje podemos vivênciá-la à luz do sol, à céu aberto, nos Arcos do Jânio, na 23 de Maio, Radial Leste, na Vila Madalena , na Paulista ou em Ermelino Matarazzo, Guaianazes, São Miguel Paulista e outros tantos bairros sem galerias ou centros culturais que existem na cidade, outros tantos cantos da Alma Paulistana esquecidos.

Ocupação Cultural de Ermelino Matarazzo "Uma Luta que dura mais de 20 anos" "Agora este espaço é nosso, vamos apropriá-lo"
Ocupação Cultural de Ermelino Matarazzo “Uma Luta que dura mais de 20 anos” “Agora este espaço é nosso, vamos apropriá-lo”

Por isso, eu, Vitor Ricciardi Chiarello, apoio incondicionalmente a democratização da cultura. Quanto mais cultura e quanto mais choque cultural, melhor.

Subvertam só quando o Mário PM não estiver olhando
Subvertam só quando o Mário PM não estiver olhando

Minhas primeiras fotografias foram feitas nas ruas, fotografei, e vou continuar fotografando, grafite e diversas outras intervenções artísticas de rua com a intenção de divulgá-las, reconhecê-las e apoiá-las. Levando assim cultura e arte à vida de cada um de nós. Colocando cultura e arte em nossos caminhos e nossos cotidianos.

Então, amiguinhos. Esta é a lição que fica por hoje. A Arte tem a obrigação de subverter a ordem natural, de se opor, questionar e desconstruir o pré-estabelecido, portanto, peguem agora a câmera que estiver ao alcance e subvertam!

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3 comentários em “Arte pra Quem? – Mais Choque, Mais Cultura”

  1. Poxa, eu quero dizer que mais uma vez esse post ta muito bem escrito e elaborado!
    Eu gosto de grafite. Hoje eu quero falar especialmente sobre os arcos do Jânio. Eles são muito bonitos e ficaram ainda mais bonitos com esse presente que receberam.
    Vi críticas aos grafites que foram feitos lá e achei essas críticas muito injustas. A resistência ao novo muitas vezes chega a cegar as pessoas. Tudo evolui e aquele grafite naqueles arcos são a prova de que podemos conviver em harmonia com o velho e o novo.
    Como um profissional da mídia pode por uma foto daqueles arcos depois de grafitados e criticar, se a própria foto mostra a beleza do conjunto formado? É negar o óbvio.

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