Além da Pauta III

– O senador Matias talvez não seja o gente boa que proclama a campanha na TV.

Luiz sorri e, sarcástico, responde:

– Jura! Pô, não sabia!

A detetive irrita-se com a intromissão, mas não para.

– Existe a suspeita que na fazenda dele, a Peter Pan, existam famílias inteiras de bolivianos em trabalho análogo ao escravo.

Luiz se remexe na cadeira, ele conhece aquela história. Foi ele quem descobriu aquilo tudo.

– Quando digo famílias inteiras, isso inclui crianças. – continua a detetive de forma mais séria.

Luiz já nem mais escutava, apenas lembrava-se daquele dia. Hoje faz dois anos que o mandaram embora do Jornal, não podiam manter um jornalista que era processado por um dos maiores senadores do país. O processo era tranquilo, aquela matéria quase o matou.

– Eu sei de tudo isso detetive, você não apresentou nenhuma novidade – O olhar de Karina atravessou os olhos dele, com certeza odiava ser desafiada.

Enquanto isso, Neto ouve calado a história, como Karina é capaz de falar tudo isso na frente de um editor de fofocas?

– Você só falou o que sabe que eu publiquei e já investiguei. De acordo com a justiça, nada prova que existam famílias nas terras do Matias. Eu sei que existem, eu as vi. Você também sabe que elas estão lá, sempre soube. O mundo inteiro sabe, mas a justiça não pode fazer nada se as famílias não aparecerem. E a não ser que você tenha o celular de algum escravo do maldito senador, infelizmente, você não tem nada. E se continuar a querer ser a Sherlock, vai acabar como segurança de shopping, se estiver viva.

– Uma criança fugiu.

Neto, que até então parecia nem estar lá, levantou-se da mesa enfurecido e gritou:

– Chega! Eu não quero saber de mais nada! Uma coisa que aprendi nesses anos de “fofoca” foi que saber pouco é saber o bastante.

– Você é um bosta, Neto! – Luiz fala olhando nos olhos do editor. Quando Neto vai responder, a detetive o atrapalha.

– Pai…

Luiz se espanta muito:

– O quê? Se é pai de uma detetive? Caramba!

– Pai – a detetive ignora o jornalista – você é peça fundamental para a investigação dar certo. Por isso estou dizendo tudo isso aqui, na sua frente.

– Me ponha fora, bem fora dessa.

– O que eu preciso do senhor é muito simples, preciso que mantenha coberta a ausência do Luiz aqui. Todos sabemos que ele é vigiado pelos homens do senador, até eu sou, então, se esse Maldito jornalista aceitar a minha proposta, iremos precisar encobrir a ausência dele nos bares e na redação.

Neto apenas faz um sinal com a cabeça. Luiz tira onda – ela deve ter puxado a mãe. – Karina apenas o olha e continua.

– Como estava dizendo antes do show, uma criança fugiu, acertou alguém com uma enxada e correu para o meio do mato. Nós a encontramos e, quando a interrogamos, ela relatou que fugiu por que não aquentava mais trabalhar, relatou também surras e abusos. Só temos um problema, ela não sabe de onde veio.
– Então está na mesma que eu! Não entendo o porquê você veio até aqui. Disse Luiz com um pouco de irritação e frustração.

– Com uma diferença, eu peguei uma amostra do sangue encontrado na enxada da menina e mandei fazer um exame de DNA. Meu instinto estava gritando para eu fazer uma visita na fazenda do senador e, junto com um policial que também é médico, simulei que estávamos fazendo exames e aplicando um remédio para evitar uma virose que estava se alastrando na região.

Luiz apenas observa a jovem policial. Ela fala com confiança e voz firme, sua história envolve risco e instinto. O jornalista, após toda a análise do relato, confirmou que ela só podia ter puxado a mãe. Neto era um cara que, assim como hoje, sempre ficava de canto.

– Luiz, você tá me escutando?

– Sim, sim e aonde você chegou na sua linda aventura de 007?

Karina já estava farta do desprezo, mas resolveu continuar.

– É aí que a coisa pega, senhor Luiz. O sangue que encontramos na enxada pertence ao senhor José Matos.

– Ao Zé Mato? Se tá brincando- um sorriso saiu dos lábios do jornalista. Zé Mato era um funcionário do senador Matias e, quando descobriu sobre a matéria de Luiz, pegou um avião para São Paulo só para bater no jornalista. Luiz não assume, mas ele tomou a maior surra. Essa mulher trouxe para ele de presente a coisa que ele mais queria: vingança contra o senador e seu capataz.

– Não estou brincando. Mas vamos finalizar esta conversa por hoje.

 

To be continued…

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