Além da Pauta II

Luiz bate o telefone no gancho com tanta força que o som ecoa por todo seu apartamento. Uma dor aguda o faz lembrar da mão que estava cortada – Merda! – ele diz, enquanto enrola a mão toda ensanguentada em uma faixa qualquer que achou em alguma gaveta. Após fazer o curativo, procura a chave do Peter Parker, seu Opala, que ganhou esse apelido quando bateu de frente com um muro, devido à péssima ideia de Luiz de fotografar um grupo de traficantes aliciando um jovem para o tráfico.

Com muito esforço, ele acha a chave, veste uma calça qualquer e xingando o mundo, pega o elevador, são 6 andares em um prédio de luxo em São Paulo, o último de seus pertences da época em que existia um jornalista famoso ali. No quarto andar, uma senhora entra no elevador – Bom dia, seu Luiz! – disfarçando o péssimo humor, ele responde – Bom dia, Dona Kelly, tudo certo?- Dona Kelly, é gente boa, mas naquele ano tinha sido eleita síndica e precisava trabalhar, então aproveita o momento e, assim que chegam ao 0, antes de Luiz sair do elevador, diz – Seu Luiz ?- ele segura a porta e se vira para ela – Acho que seu condomínio tá atrasado… Aquela noticia só serviu para deixar o nosso herói ainda mais furioso. Evitando descontar a raiva no mensageiro, apenas sai do elevador e solta a porta – Que se exploda, sua velha!

Ao sair na garagem, ele aciona o alarme do carro e sai rasgando pelo portão quase fechado. Luiz tem 30 minutos para chegar na redação, senão irá ouvir um monte do Neto, o editor do “Portal Famosíssimos” e seu novo chefe. Eles fizeram a faculdade juntos, enquanto Luiz era um dos melhores alunos da sala, Neto era mais um lá no meio. Hoje, Neto é o cara e Luiz um grande zé-ninguém que como um ex-BBB já teve lá… seus dias de glória.

Capítulo 2 – Um grande investigador de calcinhas

– Bom dia, Luiz!- Era sagrado ouvir a recepcionista Bel todas as manhãs. Os cabelos loiros e seios fartos sufocados em sutiã com bojo, sempre muito à mostra, lembram Luiz do lugar onde ele está. Tudo naquela redação era aparência. Eram jornalistas “sociais” que colocariam os colunistas sociais da “época” do Luiz em estado catatônico. Um homem musculoso passa ao seu lado, provavelmente, uma celebridade avisando que estará em algum restaurante hoje à noite. Luiz vai direto para a sala do Neto, sem bater, abre a porta – Preciso pagar o condomínio, o que tem nesse admirável mundo novo para hoje? – Neto apenas sorri e diz:

– Bom dia! Além da nota sobre a Ísis valverde, temos uma ou duas fotos da Grazi com o Cauã em um restaurante no Rio, acha que dá conta?

– Você só pode estar querendo me humilhar! Você é o editor desse negócio, tem que ter algo mais interessante, algo para se pesquisar… um furo.

– Hoje é seu dia de sorte, Liso! (um apelido que Luiz recebeu na faculdade devido a sua habilidade em escapar de furadas e descobrir novidades).Você pode descobrir que cor era calcinha da Ísis…

– Pelamor de …

– Você não acredita em Deus, Liso!

– E nem ele em mim!

– Vá sentar na sua mesa! Produza as notas e volte aqui, precisamos conversar!

– Eu te odeio, Neto!

– Eu também me odeio. Às quinze, aqui na minha sala.

Luiz bate a porta, fazendo toda a redação olhar para trás. Ele tem uma mesa, perto dos estagiários, é a única coisa que gosta naquele lugar. Os estagiários, futuros jornalistas, que ainda têm futuro: informar, contar grandes histórias e até se ferrar trabalhando, como ele. Os “muleques”, como os chama, são os únicos que gostam do repórter naquela redação.

– Eaí Boss, qual a boa? – Julio, um estagiário negro com quase dois metros de altura, que senta a uma mesa de distância falou por cima do seu notebook.

– A boa é a gostosa da Ísis, que comprou calcinhas, e a sua?

– Giovana Antoneli lança linha de macacões – Respondeu fingindo entusiasmo.

– Trabalhando em matérias importantes, gostei de ver hein….

O garoto entende o sarcasmo e ri. Luiz é seu ídolo e já trabalhou nos maiores jornais do país, Julio sonha em ser o Boss um dia, mesmo depois do Caso Peter Pan. O repórter liga seu computador e começa a escrever sua nota, aquilo é moleza, trabalho de iniciante. Enquanto escreve, lembra das grandes matérias da sua vida: As propinas nos processos de privatização, a história da Tia Xereta e, entre todas as outras, o Caso Peter Pan… a melhor de todas, sua ruína.

Apesar de estar no pior lugar do mundo, Luiz ainda é jornalista e, quando repara na foto da Ísis no shopping, consegue ver um pequeno, muito pequeno mesmo, pedaço de pano vermelho saindo da sacola que a atriz carrega. – Hahaha o Neto vai adorar essa – Ele termina a nota sobre o Casalzinho padrão chato e liga no ramal do Neto:

– Fala.

– Vermelha, e é fio dental.

– Isso que é jornalismo investigativo! Agora vem aqui para minha sala, vamos ter aquela conversa.

– Ok, to indo.

Mais uma vez, entra sem bater e se depara com uma mulher sentada na cadeira do outro lado da mesa. Neto estava sério, algo acontecia ali – Desculpa atrapalhar, é … hmmm, volto depois – Algumas jornalistas, não acreditando no seu potencial, às vezes, dão em cima de seus editores, Luiz, acha que é o caso, mas o próprio Neto o impede de sair.

– Entra, Liso. Essa é Karina, detetive da Polícia Federal…

– Caralho, Neto, o que você fez? – Ignorando a presença da mulher ali.

– O editor Neto, nada. – Ela interfere. – Luiz Carlos Magnos, eu vim falar com você – A mulher de cabelos negros, vestindo um terno feminino responde, com um olhar sério que atinge o repórter. Luiz sentiu medo, ele não sentia medo desde que…

– Como posso ajudar a detetive?- Luiz diz, com um pouco de deboche na voz.

– É sobre o caso Peter Pan, você escreveu a…

– Eu não sei de nada, como pode ver sou só um repórter do Famosíssimos.

– Eu peguei esse caso. E preciso da sua ajuda.

– Nem fodendo, eu não sei de nada. A mulher sorri, Luiz repara em seus olhos claros, ela é linda, cara!

– Tudo bem, Luiz… mas eu diria que tenho uma pista que pode salvar a sua carreira e prender o canalha daquele Senador.

– Como é que é?

– Você ouviu. Se quiser ouvir o que tenho a dizer, você vai sentar agora nessa cadeira e ouvir tudo, senão continue a falar sobre coisas importantes como o tanquinho do Cauã Reymond.

Luiz não tem opção, ela aguçou seu sentido de jornalista. Ele senta naquela cadeira sabendo que não tem mais volta.

– Ok, o que é um pingo para quem já tá na chuva…

– Então… – Começou Karina.

To be continued…

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