De Navio Negreiro todo Metrô tem um pouco

Meu nome é Mathias, na verdade, meu nome é Ogunda, mas Mathias foi o nome que o português que me comprou de outro branco me deu… Mathias… retiraram eu de mim. Enfim, fui líder de minha tribo, éramos guerreiros, nada temíamos em nossa terra-mãe. Enquanto usava meu nome, eu ainda era um guerreiro, enquanto fui Ogunda nada podia me derrotar, mesmo acorrentado, machucado e traído por outros filhos de minha terra, eu tinha coragem. Mas nem isso sobrou, se sou algo, sou Mathias, uma posse.

Para onde vou? Não sei, sei que agora estou em um navio preso e amarrado, desconfortavelmente, a um pedaço de madeira. Observando a minha volta, vejo muitos outros como eu, centenas, sem destino. A água raivosa vinga-se do navio de carga cara, mas de carne barata. Alguns de nós buscam apoios, não querem cair, se é para aguentar, que seja firme; já outros aceitam que o lugar talvez seja apertado demais e eles não vão conseguir se mexer, muito menos cair, lado a lado até os inimigos se apóiam aqui.

Aonde vai parar essa fantástica obra? As lendas contam de homens que nos levam para longe, para algum lugar onde deixarei de ser de uma vez por todas Ogunda e serei uma ferramenta. E como tal, receberei apenas o bastante para ser produtivo, ou seja, não me deixarão morrer de fome. Quando por algum motivo, como ferramenta, eu não funcionar conforme o esperado, serei consertado. Alguns diriam que eu seria maltratado, punido pelos meus erros ou prazeres de outros, mas fique tranquilo, é possível punir homens e eu não passo de uma ferramenta, não se pune aquilo que não tem alma.

Meu nome é James, não, na real, meu nome é Jamil. James foi o nome que o Mkt da empresa me deu para ser melhor para os clientes, afinal sou do telemarketing da empresa e essa bela multinacional não deve ter entre os seus um pobre Jamil. Talvez um Jamil pobre, isso eles deixam, agora o pobre Jamil eu só posso ser nas horas vagas e no caminho para o trampo.

Com o meu alimento abafado na mochila, estou em uma fantástica obra, voa sobre os trilhos em velocidade inexplicável. Em seu interior, por sorte, encontre um roliço pedaço de aço onde possa me apoiar. Ao olhar para o lado, meu queixo toca a ponta da cabeça de uma mulher, que retira seu olhar, hipnoticamente perdido, da janela e, em um reflexo, olha para mim. Recebo seu olhar, ele expõe ódio, mas mesmo assim não nos desculpamos, nem pelo olhar e nem pelo toque, afinal cada milímetro de oxigênio deve ser preservado.

Olhando a minha volta, vejo centenas como eu, que se apóiam ou seguram nos roliços canos utilizados para este fim. Um segundo grupo abaixa os braços e apenas espera seu destino chegar, aceitaram a ideia de que “Se segurar para quê? Não existe espaço para cair”.

Meu destino é certo, quando chegar em meu “trabalho”, serei ordenhado como cabra e utilizado como ferramenta, operado por uma máquina. O domínio tem certo poder. Ao pisar próximo ao local da “máquina”, qualquer ideia se esvai e me torno tão absorto, que os meus pensamentos não atingem meu cérebro, mas sem problemas, não tenho permissão para pensar, apenas reproduzir fielmente o solicitado pela máquina, afinal por que eu pensaria? Não sou ninguém mesmo.

 

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